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quarta-feira, 12 de junho de 2024

O primeiro dia dos namorados

 — Amoraaaaaaa…

Enquanto a mais nova apoiava a testa na mesa branca, que era a companheira das duas, a mais velha tomava mais um gole de cerveja e esperava o pequeno surto passar. Ao perceber que o silêncio ia se estender, ela tomou a iniciativa.

— Que foi, amiga?

— Eu tô ferrada, muito ferrada.

Mas dessa vez, antes que ela pudesse continuar, a revelação veio cortar a respiração no meio.

— Eu tô apaixonada.

O riso subiu até o rosto da mais velha, que não ousou deixar sair a gargalhada que estava presa.

— E você só foi perceber agora, amora?

— Não ri de mim…

Ao ver que era sério, pelo menos sério o suficiente, a mais velha pousou o copo e estendeu a mão.

— Mas, amora, é óbvio que você está apaixonada. Vocês estão juntos faz um tempinho… mesmo antes de vocês ficarem, era bem perceptível. E depois, você nunca foi muito boa em esconder isso.

— É, né?

O olhar manhoso da mais nova era engraçado de ver.

— Então, do que se trata?

— Semana que vem é dia dos namorados…

— Uhum — era apenas a confirmação para a outra continuar a falar.

— E eu não sei como me comportar.

— Como assim?

— Ah, eu devo comprar um presente? Devo falar alguma coisa? Eu nem sei se estamos namorando!

A cabeça voltou a tocar a mesa, mas dessa vez a mulher confusa foi com a mão até o copo e em um malabarismo deu um jeito de beber sem deixar cair. Mas como era uma manobra perigosa, achou melhor sentar ereta e olhar para o céu noturno.

— Mas vocês conversaram sobre isso?

— Mais ou menos… tenho medo de parecer louca com tudo isso, com esse furacão que estou sentindo. Ele nem gosta de ficar conversando sobre sentimentos e eu só estou, sei lá, aproveitando enquanto dá. Você sabe que temos prazo e limites… tantos limites.

A mais nova olhava para as estrelas agora, tentando fazer o coração pulsar com um pouco mais de compostura. Eles se conheciam há tão pouco tempo que achava um exagero sentir tudo isso, mas outra coisa dentro dela mandava tudo se ferrar e apenas se permitir.

— Mas você está feliz?

A pergunta veio como um raio de luz no meio da turbulência, baixa em primeiro momento, até que trouxe a amiga de volta para a conversa, como o fio de Ariadne.

— Pra caralho e isso me assusta.

Dessa vez o sorriso que brotou no rosto da mais velha não foi de graça da situação, mas de afeto pela melhor amiga. Ver a amiga feliz, depois de tantas coisas, era tudo que a outra queria.

— Então pronto, só aproveite. Não fique pensando demais em tudo isso. Deixa as coisas acontecerem como elas tem que acontecer.

As mulheres se olharam com carinho e permaneceram de mãos dadas por um tempo, até que a mais nova começou a rir.

— Eu pareço uma adolescente, né?

Sem responder, as duas só se permitiram sorrir e aproveitar a companhia uma da outra.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Tão perto e tão longe

Se pudesse apenas esticar os braços poderia tocá-lo
Mas meu medo impede que eu faça, me impede que eu continue
Como consigo amar e ao mesmo tempo me encolher?
Mas entendo, não liberta porquê o amor é só meu.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Esperando

Ela estava na arquibancada esperando ele passar. Ele sempre passava por ali na hora do intervalo e olhava para cima, para ela. Pelo menos era o que parecia. E ela sempre achou o menino lindo e estava animada. Cada dia ia mais arrumada para tentar impressionar. Afinal, como chamar a atenção sem falar?
Mas por quê não falava? Ah, meninas não chegam em meninos, oras, é claro!
Mas ela dava sinais. Aqueles de sorrir, jogar o cabelo, olhar mais demorado.
Ele ia perceber, claro que ia. E logo ia olhar e ir até ela. Assim esperava.


Ele estava passando, nervoso. Há algum tempo era interessado nessa menina, linda linda. E por isso mesmo, inalcançável. Como uma menina que sempre estava arrumada e bonita poderia gostar de um cara como ele, super simples. E ela sempre estava sorrindo, com os cabelos ao vento, parecia um comercial. Nunca que ela daria bola. E pra quê chegar em alguém que vai te dar um fora? Po**a! Essas meninas são assim, não sabem como é difícil tomar uma atitude.
Era melhor deixar pra lá. E ele continuava esperando alguém que gostasse dele.


Ele chegou passou por ela aquele dia e não olhou.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pular

Ela estava lá ao que parecia ser uma semana inteira, mas nem tinham se passado alguns minutos. E quanto mais olhava para baixo, mais dava medo. Como seria arriscar e pular?

Outras vezes já tinha tentando e no final, apesar da queda e a sensação de voar, a chegada tinha sido dolorosa. Pular de tão alto tinha suas consequências.

E ela continuava lá, parada no terceiro andar do trampolim.
Seu irmãozinho gritava, "menininha, meninha", mas no alto de seus 12 anos, não era isso mesmo que ela era? Uma menina.
Mas no que isso fazia dela menos corajosa?
E como ela estava com medo agora.

E quanto mais olhava para baixo, mais medo tinha.
A ansiedade e a lembrança de cair de mal jeito ainda eram fortes, mas e voar? 
A sensação do vento em seu rosto era melhor que qualquer dor.

"Quer sabe? Que se dane!"

E pulou.

Enquanto caía, ela só pensava no quanto amava aquilo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Luta do ainda ser


Ela pisa em água rasa e seus pés sentem o frio  congelante adormecer a palma de seus sonhos. 
Parada ela vê o fim do mundo pela janela, um distante planeta Terra sendo engolido por sorrisos e rostos alegres.
As enormes bocas se abrem para nada dizer, apenas balbuciar incongruências quaisquer, para mentir e sorrir. As faces dos destruidores são mais rígidas que seus dedos congelados e mais brancas. 
Mas o que ela pode fazer contra um exército de seres devorando as entranhas do planeta e expondo de forma grotesca as vísceras molhadas da mãe de todos? Será que só ela os vê?
São esses seres, invisíveis aos demais?
Ao longe, ela vê outros congelados como ela. Eles existem, mas o que fazem?
Com toda força ela tenta sair, mas dói. Dói arrancar a própria pele.
Sua palma já perdida, assim como seus dedos, lhe fazem questionar: “como andar?”
Mas é preciso salvar algo, o mínimo que seja de vida, uma centelha minúscula de existência.
Olhando para frente ela vê ainda mais água, muito mais para caminhar, e se já sem pele em seus pés, o que a fará seguir? Perder todo seu exterior? 
Tudo aquilo que ela vê de si mesma, que os outros vêem e sabem dela?
Será preciso perder tudo para salvar algo.
Mas dói. Arrancar cada centímetro de si e expor sua carne, dói muito mais do que ela suporta.
Então, vale a pena continuar?
E quando lá chegar, os sorrisos e rostos brancos continuarão a devorar tudo de bom que existe?
Pensar não ajuda, apenas agir, continuar, até estar totalmente nua.
Não sentir nada, é sentir tudo que se pode, é fazer com que a vida siga.
Quando o último suspiro for deixado para trás, no rio congelado de lágrimas, ela será outra. Alguém que ela não conhece, mas ainda sim, será.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Romantismo roubado


Ela amava a ficção.
Essa coisa de viver a vida de outra pessoa, ser um voyeur da vida alheia, era uma imagem que agradava àquela mulher. Uma alcoviteira, vivendo de migalhas.
E era mesquinha ao tratar os pobres autores, desejava sempre mais. Algo estava errado naquele roteiro, pois sua própria vida estava errada. Pensamentos pequenos para pessoas pequenas.
Mas no fundo a coisa toda era outra, toda a mesquinhês e ficção eram um escudo.
Sem vida própria ela seguia, tentando agarrar com furor a vida das personagens. Por isso mesmo, sofria quando eles sofriam e amava quando eles amavam. Já era quase impossível sentir o próprio corpo, e até ele a havia abandonado.
Mas para quê se importar? 
Em seus sonhos e suas imagens projetadas ela poderia ser quem quisesse ser. Uma boa foto, uma atriz, modelos eram abundantes, todas perfeitas. Para quê manteria seu corpo imperfeito?
Depois do corpo, pedaços de sua mente começaram a escapar, memórias.
Feias memórias de um passado triste.
Mas existiam os livros, os filmes! Ora! Novas memórias!
Ela poderia ser amada uma única vez de milhares de formas diferentes e perfeitas. 

"Como era mesmo aquela cena? Aquele beijo da novela? Tudo pode ser meu. Está ali, eu me lembro. Por quê não fazer disso uma memória minha?"

Ela queria tudo. Todos os amores perfeitos.
E mesmo quando a protagonista morria, sem problemas. Ela poderia passar para outra, e mais outra, e tantas que nem mesmo caberia no mundo. Todas as histórias já escritas e que ainda vagam pelas mentes do autores nem nascidos.
Até a última gota, a última letra, o último som.

Já sem corpo, sem memórias, em uma quase vida, a antiga mulher, agora uma ideia apenas, ainda não estava satisfeita. Ela queria se perder. 

E assim foi.

E não foi.

Ela continua presa, em qualquer história que se ler. Na pequena ideia da perfeição.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Juntando os Cacos


A menina estava catando os cacos do que tinha acabado de quebrar. Segundo sua mãe, ela tinha passado correndo ali “umas vinte vezes”. Ela não tinha contado, mas imaginou que a mãe poderia estar exagerando um pouco.
Mas o fato inegável é que ela tinha sido alertada de não correr perto da louça, e no entanto, ela correu.
Enquanto estava com o papel jornal estendido ao lado da tragédia e o olhar severo da mãe acompanhando, ela pensou: “poxa, eu também caí, me machuquei, será que ela não vê isso?”.
Uma raiva preenchia seu peito, afinal, quem pensava nela dentro daquela situação toda?
Mas com o passar dos pedaços grandes sendo catados, passando para os menores, até chegar no farelo, ela foi entendendo uma verdade, o acidente tinha sido causado pela sua imprudência, estava na hora de admitir a culpa.
Mas era difícil e doloroso, afinal ela estava com o joelho doendo e ralado, mas o que podia fazer além de se levantar e limpar a bagunça?

-        Desculpa, mãe.
-        Tudo bem, filha, agora não corra mais aqui na cozinha, tá bom?
-        Pode deixar comigo.

Logo a menina saiu da cozinha e pensou no que estaria passando na televisão. E breve esqueceu do ocorrido e do joelho dolorido. Abriu um grande sorriso ao notar que ia passar seu desenho favorito.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Palavras para o Silêncio


Parada, ela observava-o ir embora.
E conforme a distância crescia ela podia revelar as lágrimas contidas em um sorriso de adeus, ele não voltaria mais. O abismo que se formava aos seus pés era impossível de ser contemplado, apenas o silêncio da música restava em sua mente.

Seus lábios ainda estavam amortecidos quando a primeira lágrima os tocou, sensações, era tudo que tinha ficado para ela. Cansaço, a umidez entre suas pernas e o desconforto de sua primeira vez.
Ela queria aproveitar a sensação de ainda não ter dormido, quando finalmente entenderia que sua pureza tinha sido dada como um presente barato, um suvenir.

E pensava se as coisas apenas se tornavam reais no dia seguinte.

Queria aproveitar que a madrugada ainda não tinha rasgado a noite como um coito e aproveitar antes do momento de confrontar todo o resto, a solidão.
Queria beijá-lo mais uma vez, sentir de novo o momento de paixão, algo que ela nunca esqueceria.
O seu primeiro momento, aquele que nunca mais voltaria e que ela gostaria que fosse só um pouco mais longo.

Ainda com seu vestido branco sujo da noite, ela caminhou pela hora mais fria da madrugada, indo em direção ao sol, queria saber que ele nasceria e que um dia novo chegaria. Afastar aquela sensação que o tempo tinha parado. No dia em que ela tinha dado o seu carinho, afeto, amor e tudo tinha sido descartado.

Mas agora não fazia mais diferença, ele nunca mais voltaria, ela nunca seria quem era; e sabia que isso iria acontecer, sabia o que estava fazendo, sabia o que ele queria dela. Ela quis, fez questão.

E assim como o sol que nascia, ela também nascia. Uma outra pessoa estava ali parada olhando outro dia chegar, sem expectativas, sem esperanças, apenas vendo o calor nascer. Não havia trilha sonora, não haveria mais amor.

E a coisa que mais sentiria falta era a música do Silêncio.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Taverna dos Personagens


Era noite na taverna dos personagens. O local era secreto e fechado, pouco tinha saída de ar, afinal, eles precisavam de um lugar onde pudessem ter privacidade. A morena entrou no bar já suspirando de cansaço.
Ela viu seu amigo no balcão e se aproximou.
-       Você viu?
-       O quê? – perguntou o rapaz loiro de boca grande.
-       O que ela falou enquanto assistia o episódio?
-       Não vi, eu não estava nesse lembra?
-       Verdade, desculpa. Mas enfim... estou cansada.
Ela não era a única, a vida de personagens era muito difícil. Eles existiam por um período de tempo curto e depois acabavam. Alguns ainda ficavam durante muitos anos na ativa. Os monstros principalmente. As mocinhas nunca tinham essa sorte, as vilãs sempre ficaram muito mais na cabeça das pessoas que elas.
Todos queriam ser lembrados, menos a morena. Ela estava bem cansada de ter sua “vida” vista por todos. Ela sentia-se prostituída.
-       Você sabe que essa é a vida de um personagem, não? – o loiro sempre dizia para ela.
-       Sim, eu sei. Mas sabe, talvez ser um personagem seja uma porcaria.
-       É o que você é, gata. Não tem como fugir.
-       E se eu conseguisse um jeito de ter uma vida própria?
Ele tremeu com o copo na mão. Seria uma loucura se alguém ouvisse aquilo.
-       Tá doida? Vai falar isso em voz alta!
-       Ah, aqui é proibido para autores né? Então! E mesmo assim, eles que se ferrem, afinal se eles me escutarem, talvez cancelem minha história. E quem sabe o que rola depois do cancelamento?
-       Olha, ninguém nunca mais voltou pra contar.
-       Então! Quem sabe existe vida depois dessa exposição toda! Quem sabe existe alguma justiça divina!
Ele então pousou o copo no balcão e começou a rir! Gargalhar para dizer a verdade.
-       Justiça divina? Você só quer trocar um autor pelo outro.
-       Verdade... eu só queria pode seguir as coisas do meu jeito e não o que escrevem pra mim. Cada diálogo babaca!
-       Bom, mas isso só vamos saber se você for realmente cancelada...
-       Tenho que ir. Obrigada pelo papo.
-       De nada e se cuida.
Ela saiu de novo, afinal tinha uma cena de romance escrita logo em seguida.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre o nada


Ela acordou e não havia nada lá. 
Mentira.
Ela acordou e viu apenas uma imensidão branca e ela mesma. Um papel pronto para ser usado. Ela achou que ainda estava dormindo, a pobre garota. Achou que era apenas uma brincadeira de seus olhos cansados.
Mas não era.
Tentou ver além, enxergar algo escondido, mas era isso, um vazio ao seu redor. E pela primeira vez em sua vida, ela estava completamente sozinha. Como não havia chão, nem cama, nem nada, ela não sabia se estava de pé, ou deitada, se poderia caminhar, e se caminhasse para onde iria?
Um súbito desespero lhe apertou o peito, achou que deveria chorar e gritar. Mas ao mesmo tempo viu a inutilidade de tal ato, afinal, mesmo um recém-nascido sabe muito bem que o choro é para os outros. O choro serve para dizer ao outro que estamos precisando de algo, para que nos acudam. E, bom... não havia ninguém.
Numa última tentativa boba de se consolar, ela pensou estar cega. Mas como pode estar cega e ver seus defeitos tão claramente, suas marcas, roupas, passado.
E com uma coragem acima do que ela mesma conhecia, admitiu a situação, não havia nada lá.
Quedou-se parada por um bom tempo, até que pensou em uma música.
Ela sorriu ao se lembrar de uma música boba, que um dia ouvira na infância. E cantarolou.
Do seu cantar surgiram as notas musicais na sua existência, no seu papel em branco. Ela corou, a primeira música que "escrevia" era boba e sem sentido. Porém não estava mais sozinha. Viu que as notas musicais criaram um caminho.
Ela então começou a correr feliz pela linha preta entrecortada pelas pausas, contratempos e notas. Cantava alto agora e corria.
Chegou ao final da música e sentiu como se ali tivesse um precipício, cair de novo para o infinito vazio, até que pensou ter asas. Já que ela poderia criar, porque não criar um mundo onde ela poderia ter grandes asas brancas?
Jogou-se do final da música, fechou os olhos e planou com suas asas, e ali ela criou o vento. Não precisava de um espaço, apenas das asas que ela mesmo tinha feito.
Ela então fazia seus caminhos de música e sempre alçava grandes vôos com suas asas imensas.
Com o passar de uma música e outra ela criou o tempo, um tempo próprio que apenas começava quando uma nova música lhe tomava o mundo. Um tempo que parava quando seu coração parava de bater compassado. Onde um sorriso durava meia música ou duas músicas inteiras.
E para quem acha que ela terminou por aí, nunca. Agora que sabia que podia, ela começou a criar as cores, misturá-las, fazer músicas e voar. 
E não parou mais de criar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A briga


Eles estavam ali parados há pelo menos 40 minutos.

Ele com a sua habitual camiseta preta do Metallica olhava para ela e só conseguia pensar em como pôde gostar de uma menina como aquela. Afinal, ela usava sombra e rímel na escola. Que absurdo! Estava cansado de ficar ali parado.

- Mas olha só, o Sex Pistols...

- Pode parar!

- O quê?

- Eu sei bem onde essa sua argumentação vai levar.

- Viu! Eu nem posso falar nada que você já me corta!

- Eu já sei o que você vai falar...

Ela fez aquela expressão de quem ia começar um longo monólogo.

- "E lá vamos nós"...

- Arght, odeio quando você faz isso!

- Isso o quê?!

- Cita pica-pau quando brigamos!

Ele abaixou a cabeça e deu um sorrisinho irônico.

- Viu! Sempre que você faz isso é porque não está me levando a sério!

Ela estava furiosa, sabia que não deveria ter se apaixonado por ele. Oras, um garoto que usa só preto e vive de cabelo preso. Com o cabelo daquele tamanho, pelo menos ele deveria passar um creme para pentear.

- Tá bom, fala. Pode completar o que você ia dizer.

- Obrigado! Então, mesmo que certas bandas sejam pobres musicalmente, elas pelo menos tem uma relevância histórica, entende? O Sex Pistols era a representação de toda uma juventude londrina que era massacrada, apesar de ser punk e tal.

- E quem é que diz qual banda tem relevância histórica?

- Ah, cara... isso fica explícito.

- Certo, então para ter relevância histórica precisa ser amplamente comentado?

- Mais ou menos. É quando esses caras falam a voz do seu tempo. Quando as pessoas reconhecem.

- Hmmmm, entendo. E essas pessoas ficam famosas nas sua épocas.

- Claro, isso mesmo!

- Certo, então quem emplaca muitos singles na Billboard são vozes do nosso tempo, certo? Afinal é amplamente comentado.

Ele achou que tinha caído em uma armadilha bem ali.

- Olha, eu sei que você também gosta de bandas só por gostar, porque são divertidas e não tão boas assim.

Ele ficou olhando cansado e derrotado para ela. Queria levantar, ir embora e agradar sua namorada, afinal, ele gostava mesmo dela! Não ia admitir, mas ela era linda mesmo.

- Tá bom, eu admito. Lady Gaga é legal. Humpft.

Ela sorriu vitoriosa. E estava feliz por saber que ele faria aquilo por ela, cederia às vezes. Sabia que um pouco ele já estava cansado e que talvez ele tivesse cedido, mas ele era tão fofo, tão tão... apertável.

Ela o abraçou forte e se beijaram.












- Só não conta que eu falei isso pra ninguém, viu!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

I wish you could see how beautiful I was today

Ela nunca tinha se achado bonita, era gordinha e desajeitada. Passava muito longe daquele padrão cinematográfico que tanto admirava. Às vezes ela sentia que continuava vendo filmes apenas para se martirizar ainda mais.

Mas então algo mudou naquele mês que passou, alguém olhou para ela. Era o rapaz que fazia os sucos na lanchonete que ela sempre ia. Será que estava delirando? Será que ele nunca olhou de verdade para ela e tudo era apenas uma grande bobagem? Sabe, coisa de receber bem na lanchonete, profissionalismo e cortesia.

Ela teve muito medo durante muito tempo de estar enganada e se iludindo, por isso nada falava. Mas ia todos os dias no mesmo lugar.

Mas aquele dia seria diferente. Ela faria tudo diferente.

Então, ao acordar, se encheu de força e confiança. Escolheu uma roupa que favorecia seu corpo, usou aquela maquiagem que sempre pensou em fazer quando decidisse ser sexy. Era isso, era aquele dia. Ela diria mais que "oi", o convidaria para sair, trocaria telefone.

Saiu sorrindo e caminhou firme até a lanchonete.

Quando lá chegou não o viu.

Sentou, esperou.

Ele não estava lá.

Uma garçonete parou em sua mesa:

- Como posso te ajudar?

- O João, não veio hoje?

- Ah não não, ele ficou doente. Mas amanhã acho que ele tá aqui. Uma gripe de nada, sabe como é?

Tudo foi por água abaixo.

Ela pediu seu suco de sempre e foi pra casa.

Então se perguntou se ela teria coragem um outro dia e quase se disse que não, para logo se dizer sim, depois não novamente e acabar decidindo que amanhã era outro dia.

Apenas teve ânimo para twittar uma coisa naquele dia: "I wish you could see how beautiful I was today".

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Antes das 9

Ela acordava sempre com vontade de matar alguém.
Antes de realmente acordar, coisa que se dava lá pelas 9 da manhã, ela sentia-se capaz de vencer onde Napoleão e Hitler tinham falhado; conquistar toda a europa.
Seu filho já sabia e pouco falava com sua mãe a caminho da escola. Ele tinha medo que ela lembrasse de alguma travessura e rezolvesse dar o castigo tardio. Saber calar é tão bom quanto saber falar.
Para resolver tudo, ela saía com o fone de ouvido e no mp3 apenas uma seleção especial de músicas. Uma vez, quando sem querer uma música apareceu sem que ela tivesse escolhido, vixi, o pequeno aparelho foi ao chão. Agora até o eletrônico sabe o que é melhor pra ele.
Então, magicamente às 9 horas surge a mais doce e gentil das atendentes, a maior vendedora da loja. E aos domingos tudo que o filho e o marido precisam fazer, é muito silêncio antes das 9.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

“Eu te amo”

Ela estava olhando para aquele papel há duas aulas e estava pensando no que faria.
Não, ela não tinha recebido aquela declaração. Nem mesmo sabia se a entregaria, era arriscado demais. Os dois eram amigos. Certo, o professor estava saindo, era o início do intervalo, ele ainda não tinha levantado da carteira.
Ela fechou os olhos, respirou fundo, pegou o papel, o dobrou e levantou…
Apenas para ver “a outra” conversando com ele toda animada.
Ele também, como sempre.

- Queria falar comigo?
- Não, não… bobagem.

Naquele momento

Aquele não era o dia dela.

Tudo parecia fora de lugar, indo na direção errada. Sentia vontade de simplesmente sumir, desaparecer e nunca mais voltar. Filhos, contas, trabalho, marido… tudo resolveu tirar uma com a sua cara.

E naquele momento até o carrinho do supermercado tinha batido no seu pé, e não é por nada, mas estava doendo muito!

Mas uma música começou a tocar no alto-falante.

Não era uma música qualquer, era aquela música. Sabe aquela que ela tinha vergonha de dizer que gostava na adolescencência? Brega, mas que em segredo ela ouvia com o fone de ouvido. Que juraria que era da sua mãe se os amigos encontrassem, mas que guardava o cd.

Ela se pegou pensando em como os adolescentes são tolos, se escondendo de coisas bobas para auto afirmação, perdendo tempo com bobagens, exatamente… exatamente como ela estava fazendo há pouco tempo atrás.

Então olhou em volta, viu outras mulheres como ela de cabeça baixa, olhando a tabela nutricional dos alimentos que compraria e com olhares perdidos e resolveu dançar.

Agora sem se preocupar do que os outros iam falar, sem medo de ser expulsa nem do supermercado.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cabelos vermelhos

Fazia pouco mais de um ano desde que ela tinha falado aquilo.
Aquela coisa que era justa na época, que ela achava correto, que ela sentia… mas que no final, não era aquilo que ele queria ouvir.
Pouco mais de um ano desde que ele decidiu se vingar dela de todas as maneiras mais sórdidas que conhecia. Desde mentir a trair, humilhar e destruir . Ela se olhava agora no espelho e não via nenhum fogo, daquele que ardia quando ela disse o que disse.
Ela queria algo maior, melhor para eles. Mas não tinha o direito de exigir e falar o que pensava. Que mulher tola! Pensar que poderia dizer o que sentia…
E lá estava ela, no mesmo lugar, ao lado dele, mas diferente. Agora ela não tinha mais paixão por ela mesma, não tinha mais vontade de exigir ou querer coisas, ou pior, achava que não tinha o direito.
Sonhava no dia que poderia ter esse direito novamente, de poder exigir as coisas que ela achava que eram corretas… mas até lá, queria apenas pintar seu cabelo de vermelho. Queria ver, nem que fosse no espelho, que algo ainda ardia dentro dela.
Mas… será que ele ia deixar?