quinta-feira, 14 de junho de 2012

Romantismo roubado


Ela amava a ficção.
Essa coisa de viver a vida de outra pessoa, ser um voyeur da vida alheia, era uma imagem que agradava àquela mulher. Uma alcoviteira, vivendo de migalhas.
E era mesquinha ao tratar os pobres autores, desejava sempre mais. Algo estava errado naquele roteiro, pois sua própria vida estava errada. Pensamentos pequenos para pessoas pequenas.
Mas no fundo a coisa toda era outra, toda a mesquinhês e ficção eram um escudo.
Sem vida própria ela seguia, tentando agarrar com furor a vida das personagens. Por isso mesmo, sofria quando eles sofriam e amava quando eles amavam. Já era quase impossível sentir o próprio corpo, e até ele a havia abandonado.
Mas para quê se importar? 
Em seus sonhos e suas imagens projetadas ela poderia ser quem quisesse ser. Uma boa foto, uma atriz, modelos eram abundantes, todas perfeitas. Para quê manteria seu corpo imperfeito?
Depois do corpo, pedaços de sua mente começaram a escapar, memórias.
Feias memórias de um passado triste.
Mas existiam os livros, os filmes! Ora! Novas memórias!
Ela poderia ser amada uma única vez de milhares de formas diferentes e perfeitas. 

"Como era mesmo aquela cena? Aquele beijo da novela? Tudo pode ser meu. Está ali, eu me lembro. Por quê não fazer disso uma memória minha?"

Ela queria tudo. Todos os amores perfeitos.
E mesmo quando a protagonista morria, sem problemas. Ela poderia passar para outra, e mais outra, e tantas que nem mesmo caberia no mundo. Todas as histórias já escritas e que ainda vagam pelas mentes do autores nem nascidos.
Até a última gota, a última letra, o último som.

Já sem corpo, sem memórias, em uma quase vida, a antiga mulher, agora uma ideia apenas, ainda não estava satisfeita. Ela queria se perder. 

E assim foi.

E não foi.

Ela continua presa, em qualquer história que se ler. Na pequena ideia da perfeição.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Juntando os Cacos


A menina estava catando os cacos do que tinha acabado de quebrar. Segundo sua mãe, ela tinha passado correndo ali “umas vinte vezes”. Ela não tinha contado, mas imaginou que a mãe poderia estar exagerando um pouco.
Mas o fato inegável é que ela tinha sido alertada de não correr perto da louça, e no entanto, ela correu.
Enquanto estava com o papel jornal estendido ao lado da tragédia e o olhar severo da mãe acompanhando, ela pensou: “poxa, eu também caí, me machuquei, será que ela não vê isso?”.
Uma raiva preenchia seu peito, afinal, quem pensava nela dentro daquela situação toda?
Mas com o passar dos pedaços grandes sendo catados, passando para os menores, até chegar no farelo, ela foi entendendo uma verdade, o acidente tinha sido causado pela sua imprudência, estava na hora de admitir a culpa.
Mas era difícil e doloroso, afinal ela estava com o joelho doendo e ralado, mas o que podia fazer além de se levantar e limpar a bagunça?

-        Desculpa, mãe.
-        Tudo bem, filha, agora não corra mais aqui na cozinha, tá bom?
-        Pode deixar comigo.

Logo a menina saiu da cozinha e pensou no que estaria passando na televisão. E breve esqueceu do ocorrido e do joelho dolorido. Abriu um grande sorriso ao notar que ia passar seu desenho favorito.