quarta-feira, 27 de março de 2013

Cem dias


O frio abraço da noite vem me envolver
Longe, muito longe, de ser o braço que queria sentir
Passos demais para apenas correr onde quero estar
Distante mesmo de poder sonhar em tocar

Viver sem saber e apenas esperar
Mil passos para percorrer e talvez não alcançar
Como ver a luz fugir para longe de si
E nada a fazer, apenas observar e sussurrar

Sentir-se criança, imóvel e inerte, à mercê dos dias
Não era assim que me diziam que ainda podia doer
Aquilo que corre nas minhas veias e que não me deixariam sofrer
Doses que me aplacariam as lágrimas e as secariam

Mas aquilo que está marcado a ferro na alma não se vai
A não se que se arranquem o pedaço e te deixem vazia, quebrada

De tantas vezes quebrada, jogada e maltratada
A ponto de não querer mais nada, nem amor

Porém, a noite passa, sempre passa
E o novo dia vem trazer um novo alento
Aquele calor que se lembra poder ainda ter dentro do peito
O que estava guardando para quando a hora chegasse

E mais um dia são mais mil passos
Sem parar de caminhar para onde quero chegar
Com firmeza que me faltava e agora presente está
Só mais um dia que se passou, menos um dia para esperar

quarta-feira, 13 de março de 2013

Luta do ainda ser


Ela pisa em água rasa e seus pés sentem o frio  congelante adormecer a palma de seus sonhos. 
Parada ela vê o fim do mundo pela janela, um distante planeta Terra sendo engolido por sorrisos e rostos alegres.
As enormes bocas se abrem para nada dizer,para apenas balbuciar incongruências quaisquer, para mentir e sorrir. As faces dos destruidores são mais rígidas que seus dedos congelados e mais brancas. 
Mas o que ela pode fazer contra um exército de seres devorando as entranhas do planeta e expondo de forma grotesca as vísceras molhadas da mãe de todos? Será que só ela os vê?
São esses seres, invisíveis aos outros?
Ao longe, ela vê outros congelados como ela. Eles existem, mas o que fazem?
Com toda sua força ela tenta sair, mas dói. Dói como arrancar a própria pele.
Sua palma já perdida, assim como seus dedos, lhe fazem questionar: “como andar?”
Mas é preciso salvar algo, o mínimo que seja de vida, uma centelha minúscula de existência.
Olhando para frente ela vê ainda mais água, muito mais para caminhar, e se já sem pele em seus pés, o que a fará seguir? Perder todo seu exterior? 
Tudo aquilo que ela vê de si mesma, que os outros vêem e sabem dela?
Será preciso perder tudo para salvar algo.
Mas dói. Arrancar cada centímetro de si e expor sua carne, dói muito mais do que ela suporta.
Então, vale a pena continuar?
E quando lá chegar, os sorrisos e rostos brancos continuarão a devorar tudo de bom que existe?
Pensar não ajuda, apenas agir, continuar, até estar totalmente nua.
Não sentir nada, é sentir tudo que se pode, é fazer com que a vida siga.
Quando o último suspiro for deixado para trás, no rio congelado de lágrimas, ela será outra. Alguém que ela não conhece, mas ainda sim, será.