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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Juntando os Cacos


A menina estava catando os cacos do que tinha acabado de quebrar. Segundo sua mãe, ela tinha passado correndo ali “umas vinte vezes”. Ela não tinha contado, mas imaginou que a mãe poderia estar exagerando um pouco.
Mas o fato inegável é que ela tinha sido alertada de não correr perto da louça, e no entanto, ela correu.
Enquanto estava com o papel jornal estendido ao lado da tragédia e o olhar severo da mãe acompanhando, ela pensou: “poxa, eu também caí, me machuquei, será que ela não vê isso?”.
Uma raiva preenchia seu peito, afinal, quem pensava nela dentro daquela situação toda?
Mas com o passar dos pedaços grandes sendo catados, passando para os menores, até chegar no farelo, ela foi entendendo uma verdade, o acidente tinha sido causado pela sua imprudência, estava na hora de admitir a culpa.
Mas era difícil e doloroso, afinal ela estava com o joelho doendo e ralado, mas o que podia fazer além de se levantar e limpar a bagunça?

-        Desculpa, mãe.
-        Tudo bem, filha, agora não corra mais aqui na cozinha, tá bom?
-        Pode deixar comigo.

Logo a menina saiu da cozinha e pensou no que estaria passando na televisão. E breve esqueceu do ocorrido e do joelho dolorido. Abriu um grande sorriso ao notar que ia passar seu desenho favorito.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Caminhos


Quero cantar hoje, num karaokê, alguma música bem brega da minha infância.
Quero escrever aquelas histórias fantásticas que muitas vezes penso
Quero dançar o ritmo da terra sem medo de ser ridícula
Quero andar descalça e correr no asfalto brincando de esconde-esconde

Quero dormir e descansar, não apenas deitar e passar a noite pensando
Quero fazer algo que meu cérebro desligasse e me fizesse feliz por esse momento
Quero dar as mãos com meu filho, com um amigo, apenas pra saber que existem pessoas ali 
que não pensam em machucar, que sentem apenas amor

Um dia de ficção, um momento fora do mundo
Algo que colocasse um véu branco sobre a ferida aberta
Que não me deixasse ver o que vejo agora

Mas mais que isso,
Quero afastar essa dor, que me toma como o mar
que não permite que eu me levante, que não me deixa ser eu.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Palavras para o Silêncio


Parada, ela observava-o ir embora.
E conforme a distância crescia ela podia revelar as lágrimas contidas em um sorriso de adeus, ele não voltaria mais. O abismo que se formava aos seus pés era impossível de ser contemplado, apenas o silêncio da música restava em sua mente.

Seus lábios ainda estavam amortecidos quando a primeira lágrima os tocou, sensações, era tudo que tinha ficado para ela. Cansaço, a umidez entre suas pernas e o desconforto de sua primeira vez.
Ela queria aproveitar a sensação de ainda não ter dormido, quando finalmente entenderia que sua pureza tinha sido dada como um presente barato, um suvenir.

E pensava se as coisas apenas se tornavam reais no dia seguinte.

Queria aproveitar que a madrugada ainda não tinha rasgado a noite como um coito e aproveitar antes do momento de confrontar todo o resto, a solidão.
Queria beijá-lo mais uma vez, sentir de novo o momento de paixão, algo que ela nunca esqueceria.
O seu primeiro momento, aquele que nunca mais voltaria e que ela gostaria que fosse só um pouco mais longo.

Ainda com seu vestido branco sujo da noite, ela caminhou pela hora mais fria da madrugada, indo em direção ao sol, queria saber que ele nasceria e que um dia novo chegaria. Afastar aquela sensação que o tempo tinha parado. No dia em que ela tinha dado o seu carinho, afeto, amor e tudo tinha sido descartado.

Mas agora não fazia mais diferença, ele nunca mais voltaria, ela nunca seria quem era; e sabia que isso iria acontecer, sabia o que estava fazendo, sabia o que ele queria dela. Ela quis, fez questão.

E assim como o sol que nascia, ela também nascia. Uma outra pessoa estava ali parada olhando outro dia chegar, sem expectativas, sem esperanças, apenas vendo o calor nascer. Não havia trilha sonora, não haveria mais amor.

E a coisa que mais sentiria falta era a música do Silêncio.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Taverna dos Personagens


Era noite na taverna dos personagens. O local era secreto e fechado, pouco tinha saída de ar, afinal, eles precisavam de um lugar onde pudessem ter privacidade. A morena entrou no bar já suspirando de cansaço.
Ela viu seu amigo no balcão e se aproximou.
-       Você viu?
-       O quê? – perguntou o rapaz loiro de boca grande.
-       O que ela falou enquanto assistia o episódio?
-       Não vi, eu não estava nesse lembra?
-       Verdade, desculpa. Mas enfim... estou cansada.
Ela não era a única, a vida de personagens era muito difícil. Eles existiam por um período de tempo curto e depois acabavam. Alguns ainda ficavam durante muitos anos na ativa. Os monstros principalmente. As mocinhas nunca tinham essa sorte, as vilãs sempre ficaram muito mais na cabeça das pessoas que elas.
Todos queriam ser lembrados, menos a morena. Ela estava bem cansada de ter sua “vida” vista por todos. Ela sentia-se prostituída.
-       Você sabe que essa é a vida de um personagem, não? – o loiro sempre dizia para ela.
-       Sim, eu sei. Mas sabe, talvez ser um personagem seja uma porcaria.
-       É o que você é, gata. Não tem como fugir.
-       E se eu conseguisse um jeito de ter uma vida própria?
Ele tremeu com o copo na mão. Seria uma loucura se alguém ouvisse aquilo.
-       Tá doida? Vai falar isso em voz alta!
-       Ah, aqui é proibido para autores né? Então! E mesmo assim, eles que se ferrem, afinal se eles me escutarem, talvez cancelem minha história. E quem sabe o que rola depois do cancelamento?
-       Olha, ninguém nunca mais voltou pra contar.
-       Então! Quem sabe existe vida depois dessa exposição toda! Quem sabe existe alguma justiça divina!
Ele então pousou o copo no balcão e começou a rir! Gargalhar para dizer a verdade.
-       Justiça divina? Você só quer trocar um autor pelo outro.
-       Verdade... eu só queria pode seguir as coisas do meu jeito e não o que escrevem pra mim. Cada diálogo babaca!
-       Bom, mas isso só vamos saber se você for realmente cancelada...
-       Tenho que ir. Obrigada pelo papo.
-       De nada e se cuida.
Ela saiu de novo, afinal tinha uma cena de romance escrita logo em seguida.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre o nada


Ela acordou e não havia nada lá. 
Mentira.
Ela acordou e viu apenas uma imensidão branca e ela mesma. Um papel pronto para ser usado. Ela achou que ainda estava dormindo, a pobre garota. Achou que era apenas uma brincadeira de seus olhos cansados.
Mas não era.
Tentou ver além, enxergar algo escondido, mas era isso, um vazio ao seu redor. E pela primeira vez em sua vida, ela estava completamente sozinha. Como não havia chão, nem cama, nem nada, ela não sabia se estava de pé, ou deitada, se poderia caminhar, e se caminhasse para onde iria?
Um súbito desespero lhe apertou o peito, achou que deveria chorar e gritar. Mas ao mesmo tempo viu a inutilidade de tal ato, afinal, mesmo um recém-nascido sabe muito bem que o choro é para os outros. O choro serve para dizer ao outro que estamos precisando de algo, para que nos acudam. E, bom... não havia ninguém.
Numa última tentativa boba de se consolar, ela pensou estar cega. Mas como pode estar cega e ver seus defeitos tão claramente, suas marcas, roupas, passado.
E com uma coragem acima do que ela mesma conhecia, admitiu a situação, não havia nada lá.
Quedou-se parada por um bom tempo, até que pensou em uma música.
Ela sorriu ao se lembrar de uma música boba, que um dia ouvira na infância. E cantarolou.
Do seu cantar surgiram as notas musicais na sua existência, no seu papel em branco. Ela corou, a primeira música que "escrevia" era boba e sem sentido. Porém não estava mais sozinha. Viu que as notas musicais criaram um caminho.
Ela então começou a correr feliz pela linha preta entrecortada pelas pausas, contratempos e notas. Cantava alto agora e corria.
Chegou ao final da música e sentiu como se ali tivesse um precipício, cair de novo para o infinito vazio, até que pensou ter asas. Já que ela poderia criar, porque não criar um mundo onde ela poderia ter grandes asas brancas?
Jogou-se do final da música, fechou os olhos e planou com suas asas, e ali ela criou o vento. Não precisava de um espaço, apenas das asas que ela mesmo tinha feito.
Ela então fazia seus caminhos de música e sempre alçava grandes vôos com suas asas imensas.
Com o passar de uma música e outra ela criou o tempo, um tempo próprio que apenas começava quando uma nova música lhe tomava o mundo. Um tempo que parava quando seu coração parava de bater compassado. Onde um sorriso durava meia música ou duas músicas inteiras.
E para quem acha que ela terminou por aí, nunca. Agora que sabia que podia, ela começou a criar as cores, misturá-las, fazer músicas e voar. 
E não parou mais de criar.