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quarta-feira, 12 de junho de 2024

O primeiro dia dos namorados

 — Amoraaaaaaa…

Enquanto a mais nova apoiava a testa na mesa branca, que era a companheira das duas, a mais velha tomava mais um gole de cerveja e esperava o pequeno surto passar. Ao perceber que o silêncio ia se estender, ela tomou a iniciativa.

— Que foi, amiga?

— Eu tô ferrada, muito ferrada.

Mas dessa vez, antes que ela pudesse continuar, a revelação veio cortar a respiração no meio.

— Eu tô apaixonada.

O riso subiu até o rosto da mais velha, que não ousou deixar sair a gargalhada que estava presa.

— E você só foi perceber agora, amora?

— Não ri de mim…

Ao ver que era sério, pelo menos sério o suficiente, a mais velha pousou o copo e estendeu a mão.

— Mas, amora, é óbvio que você está apaixonada. Vocês estão juntos faz um tempinho… mesmo antes de vocês ficarem, era bem perceptível. E depois, você nunca foi muito boa em esconder isso.

— É, né?

O olhar manhoso da mais nova era engraçado de ver.

— Então, do que se trata?

— Semana que vem é dia dos namorados…

— Uhum — era apenas a confirmação para a outra continuar a falar.

— E eu não sei como me comportar.

— Como assim?

— Ah, eu devo comprar um presente? Devo falar alguma coisa? Eu nem sei se estamos namorando!

A cabeça voltou a tocar a mesa, mas dessa vez a mulher confusa foi com a mão até o copo e em um malabarismo deu um jeito de beber sem deixar cair. Mas como era uma manobra perigosa, achou melhor sentar ereta e olhar para o céu noturno.

— Mas vocês conversaram sobre isso?

— Mais ou menos… tenho medo de parecer louca com tudo isso, com esse furacão que estou sentindo. Ele nem gosta de ficar conversando sobre sentimentos e eu só estou, sei lá, aproveitando enquanto dá. Você sabe que temos prazo e limites… tantos limites.

A mais nova olhava para as estrelas agora, tentando fazer o coração pulsar com um pouco mais de compostura. Eles se conheciam há tão pouco tempo que achava um exagero sentir tudo isso, mas outra coisa dentro dela mandava tudo se ferrar e apenas se permitir.

— Mas você está feliz?

A pergunta veio como um raio de luz no meio da turbulência, baixa em primeiro momento, até que trouxe a amiga de volta para a conversa, como o fio de Ariadne.

— Pra caralho e isso me assusta.

Dessa vez o sorriso que brotou no rosto da mais velha não foi de graça da situação, mas de afeto pela melhor amiga. Ver a amiga feliz, depois de tantas coisas, era tudo que a outra queria.

— Então pronto, só aproveite. Não fique pensando demais em tudo isso. Deixa as coisas acontecerem como elas tem que acontecer.

As mulheres se olharam com carinho e permaneceram de mãos dadas por um tempo, até que a mais nova começou a rir.

— Eu pareço uma adolescente, né?

Sem responder, as duas só se permitiram sorrir e aproveitar a companhia uma da outra.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Sobre paternidade flexível

 Olá, você que já não está aqui.


Eu tenho pensado nessa carta há vários dias, mas nunca sabia muito bem por onde começar. Entendia que queria e precisava, mas faltava aquela coisa lá no fundo, uma indignação que não sentia há muito tempo.

Uma vez, conversando pelo telefone, tivemos uma briga interminável, uma daquelas DRs que a gente tinha e que nos custava tanto. Enfim, naquele dia você disse algo que me marcou até hoje: “eu faço o que eu posso pelo nosso filho”. Eu me lembro do lugar em que estava, do lado de fora de uma agência bancária, na frente da MPI, no centro do Rio. Tamanho foi o meu choque que mais de 10 anos depois eu ainda me lembro do som da minha indignação. 

A pessoa que tinha ido embora quando o filho tinha pouco mais de 7 meses, que mandou eu me virar quando liguei na primeira vez que ele foi internado, que não podia contribuir enquanto eu vendia meus livros para comer, que nunca esteve presente em um só aniversário em todos os anos que esteve vivo, que deixava o bebê no chão para jogar quando eu precisava tomar banho, que não fazia um esforço para ver o filho nas férias, que só foi pagar pensão depois da morte. Você fazia o que podia.

No dia eu respondi que não fazia o que podia, mas o que o nosso filho precisava. 

E é isso, muitas vezes nossos filhos precisam de coisas que vão além do que a gente pode e faz parte de sermos pais e mães. Eu poderia passar anos falando de todas as vezes que vi pais e mães indo além do possível para manter seus filhos vivos, saudáveis e felizes. Poderia passar parte dessa carta falando de todas as coisas que eu fiz um dia, mas isso é infrutífero por dois motivos.

Primeiro, não quero idealizar a maternidade. Nem mesmo a paternidade, se quer saber. Nem sempre conseguimos fazer tudo que precisamos, nem sempre temos o equilíbrio necessário para enfrentar as coisas com graça. Muitas vezes odiamos passar por aquela situação, muitas vezes queríamos apenas ir embora.

Segundo, essas palavras não são sobre mim. Não importa o que eu fiz ou deixei de fazer. Nosso filho está aqui, um homem adulto, responsável, saudável e uma das melhores pessoas que eu conheço. Só isso importa.

E apesar de nós dois já termos passado por tudo isso, me vejo hoje, refletindo e experimentando outros tipos de flexibilização da paternidade. 

Quando falam que o pai só vê seus filhos do referencial da sua relação com a mulher, eu tenho dificuldade de aceitar e acreditar. Não é possível que se ame uma criança e a veja como a extensão de alguém. Como não perceber que aquele pequeno ser humano tem suas próprias necessidades e características? 

Não entendo colocar toda a história vivida com aquela pessoa dentro de um lugar egocêntrico. Nossos filhos não estão lá para o nosso proveito. Filho não é nosso legado ou qualquer coisa nesse sentido, são pessoas reais que existem neste momento e precisam de muitas coisas para se desenvolver.

Ontem, a Diana, minha filha mais nova, passou a madrugada acordada. Pelo menos duas horas chorando e foi dormir soluçando no meu colo. Há meses ela não dormia no colo, mas essa noite ela agarrou na minha perna e não queria soltar. Quando tentei sair, ela acordou e chorou mais, então eu deixei. Era mais de 5:50 quando consegui deitar na minha cama, tudo isso para as 6:30 levantar de novo para levá-la na escola.

E o que isso tem a ver com a carta? Ontem um dos pais dela veio aqui em casa levar suas coisas embora. Depois de me mandar uma mensagem falando que não conseguia estar perto da própria filha porque não conseguia lidar com o término da relação. Ele veio, não passou tempo com ela depois de mais de 10 dias sem vê-la, não a colocou pra dormir como fazia de vez quando, não se atentou que talvez a criança tivesse sentimentos. Apenas levou tudo que podia e ela ficou aqui, sem entender o que estava acontecendo.

Novamente me vejo pensando no que podemos fazer e no que é necessário fazer. 

Hoje era necessário que ela estivesse na escola, hoje será necessário que ela vá na consulta com a fonoaudióloga e com a TO. No fundo, a falta de sono, as coisas que eu preciso fazer, ficaram em segundo plano. É o que ela precisa no momento.

Então eu pensei em você e em tudo que passamos juntos.

Bom, se existe uma vantagem nesse mundo de ter vivido as coisas é a experiência que adquirimos. Eu posso olhar para o futuro, ver meu filho adulto e pensar que essas coisas passam. Que vivemos para além das tristezas. Os momentos bons acabam sendo vastos e mais importantes. 

Porém, hoje não vou me furtar de odiar, de chorar e xingar. Talvez uma parte de mim sempre vá se lembrar de você quando eu sentir essa necessidade, neurose minha, quem sabe. Hoje, de novo, vou fazer o que é preciso e não apenas o que eu posso.

Vou tentar confortá-la quando estivermos juntas, tentar mostrar que o mundo continua girando e que o que precisamos nessa vida é coragem (já diria o poeta). Vou deixar o que eu posso fazer para outra ocasião.

Não tenho palavras amenas para me despedir, mesmo porque nem sei o que existe depois da vida. Muitas vezes gostaria de ter o conforto de saber que teríamos outras chances de arrumar nossos erros, outras anseio que a morte seja só o fim. Porém, na literatura, tudo que existe ainda está presente, então, até logo. Eu sei bem que ainda temos coisas para resolver, mesmo que seja só dentro de mim.


terça-feira, 23 de abril de 2024

Sobre amar uma neurodivergente

Essa carta é para você e qualquer pessoa que um dia possa me amar.


Olá, camada fria desse furacão.

Eu queria falar com você sobre gatilhos.

Sempre que penso nisso me lembro da introdução que o Gaiman fez em seu livro “Trigger Warning”, uma coletânea de contos maravilhosos. Um dia eu queria ter te mostrado o meu e te lido juntos para falarmos sobre isso também, mas não acho que vá acontecer. Viu, a carta nem começou e eu já estou tergiversando. Bom, o Gaiman escreve: “E o que aprendemos sobre nós mesmos nesses momentos em que o gatilho é apertado é que o passado não morre. Certas coisas ficam à espreita, esperando pacientemente por nós, em passagens sombrias das nossas vidas”. Eu sinto que muitas vezes a internet banalizou o termo, mas é exatamente isso, um alçapão que se abre sob nossos pés e nos absorve completamente.

Não são apenas neurodivergentes que possuem gatilhos, claro. Pessoas com traumas de todo tipo ou fobias passam pela mesma coisa. Porém, quando se está lidando com alguém com tudo isso junto, fica levemente pior. Tente misturar ansiedade com um evento traumático e veja o que sobra depois.

Esses cacos são os pedaços da psique que vamos recolhendo aos poucos e montando para criar uma imagem agradável (tomara). Mas aquele espaço que se perdeu ou estragou, não volta, ele faz parte da imagem final. Essa figura complexa é uma que muitas vezes evitamos olhar, focando nas partes bonitas e amenas. Porém, é o que somos. 

Para quem está de fora, muitas vezes (a grande maioria) é difícil entender e contemplar o todo. Acho que no fundo todos somos um pouco assim, um lago profundo que só se pode descobrir mergulhando. E quanto mais fundo, mais assustador. Entretanto, existe outra forma de alcançar intimidade de verdade? Aquela intimidade que se consegue com o tempo, milhares de horas juntos, diálogos intermináveis, tretas e reconciliações. Aprendemos mais sobre alguém em seus momentos difíceis que nos fáceis.

Dito isso, como proceder em momentos de gatilhos? 

Primeiro de tudo, nunca, mas nunca mesmo, me chame de louca. Ou implique que não sou normal, natural. O estigma de ser neurodivergente é pesado, muitas vezes pensamos que somos mesmo loucos. Quando uma voz externa, vinda de quem nos importamos, se soma com a pior voz que existe na nossa cabeça, a coisa fica feia. Eu entro em um estado de autodepreciação que me custa demais para sair. Quando me ver falando algo como “eu sou mesmo louca”, quer dizer que já estou nesse estado mental, cuidado.

(Será que se eu criar tópicos fica mais fácil de ler? Mas isso faria essa carta parecer um infográfico e eu queria mais um diálogo que uma aula.)

Segundo, mesmo que você não entenda, respeite. Parece simples, mas não é. Quando vemos que alguém está precisando de ajuda, costumamos querer resolver ou mesmo entender na hora. Porém, a pessoa que está em gatilho não vai ser capaz de elaborar mais que algumas frases e nem sempre tão eloquentes quanto deveriam. Sim, mesmo eu que tento ser tão lúcida na maior parte do tempo. Quem não me conhece tão bem, acha que eu sou uma pessoa muito capaz o tempo todo, muito equilibrada. Mas isso está muito longe da verdade.

Então no momento crucial, acolha. Acho que faz parte do parágrafo anterior, mas queria destacar essa frase em especial. Mesmo que você não entenda perfeitamente, teremos tempo para descobrir e conversar depois. No fundo, todos queremos isso, não é? Sermos acolhidos e aceitos nas nossas diferenças.

Acho que por último, não vou fazer um tratado de mil páginas, não me culpe pela minha divergência. Não que você tenha feito isso, mas como é um tema recorrente na minha vida, achei melhor falar logo. Já aconteceu e duvido que foi a última vez.

Eu coleciono momentos de desamparo, onde pessoas que eu me importava olharam para meu lado ruim e se afastaram. Pessoas que me prometeram amor e me abandonaram com a desculpa que eu sou “intensa”. Que me viram durante uma crise de pânico, me deixaram em casa e foram embora. E ainda pessoas que se aproveitaram da minha ansiedade para me manipular e machucar. Essas são aquelas peças que eu comentei lá em cima, os fragmentos que não posso apagar se quiser ser completa. Faz parte de mim e vem junto com o pacote das coisas boas.

A mulher gentil, amorosa, culta e inteligente é uma parte apenas, que não vem sozinha. Querer viver apenas as partes boas é o mesmo que querer uma boneca em um pedestal, uma coisa que não se parece com uma pessoa real. Quanto mais incríveis as pessoas são, mais elas carregam consigo, acho que essa é uma coisa que concordamos.

Eu sou real, complexa e sim, difícil.

E me sentir abandonada, de novo, por ser quem eu sou, me machuca profundamente. Não, eu não vou morrer, ninguém morre disso. É só mais uma parte de uma imagem maior que esperamos ser mais brilhante que sombria no final.   


Cartas geralmente terminam com uma saudação, não é? Então, espero que a vida te trate bem e que encontre felicidade na paz que tanto busca. Eu, por enquanto, vou continuar sendo o que posso. Eu mesma, completa.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Tão perto e tão longe

Se pudesse apenas esticar os braços poderia tocá-lo
Mas meu medo impede que eu faça, me impede que eu continue
Como consigo amar e ao mesmo tempo me encolher?
Mas entendo, não liberta porquê o amor é só meu.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Esperando

Ela estava na arquibancada esperando ele passar. Ele sempre passava por ali na hora do intervalo e olhava para cima, para ela. Pelo menos era o que parecia. E ela sempre achou o menino lindo e estava animada. Cada dia ia mais arrumada para tentar impressionar. Afinal, como chamar a atenção sem falar?
Mas por quê não falava? Ah, meninas não chegam em meninos, oras, é claro!
Mas ela dava sinais. Aqueles de sorrir, jogar o cabelo, olhar mais demorado.
Ele ia perceber, claro que ia. E logo ia olhar e ir até ela. Assim esperava.


Ele estava passando, nervoso. Há algum tempo era interessado nessa menina, linda linda. E por isso mesmo, inalcançável. Como uma menina que sempre estava arrumada e bonita poderia gostar de um cara como ele, super simples. E ela sempre estava sorrindo, com os cabelos ao vento, parecia um comercial. Nunca que ela daria bola. E pra quê chegar em alguém que vai te dar um fora? Po**a! Essas meninas são assim, não sabem como é difícil tomar uma atitude.
Era melhor deixar pra lá. E ele continuava esperando alguém que gostasse dele.


Ele chegou passou por ela aquele dia e não olhou.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pular

Ela estava lá ao que parecia ser uma semana inteira, mas nem tinham se passado alguns minutos. E quanto mais olhava para baixo, mais dava medo. Como seria arriscar e pular?

Outras vezes já tinha tentando e no final, apesar da queda e a sensação de voar, a chegada tinha sido dolorosa. Pular de tão alto tinha suas consequências.

E ela continuava lá, parada no terceiro andar do trampolim.
Seu irmãozinho gritava, "menininha, meninha", mas no alto de seus 12 anos, não era isso mesmo que ela era? Uma menina.
Mas no que isso fazia dela menos corajosa?
E como ela estava com medo agora.

E quanto mais olhava para baixo, mais medo tinha.
A ansiedade e a lembrança de cair de mal jeito ainda eram fortes, mas e voar? 
A sensação do vento em seu rosto era melhor que qualquer dor.

"Quer sabe? Que se dane!"

E pulou.

Enquanto caía, ela só pensava no quanto amava aquilo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Praça Virtual




As palavras abaixo foram enviadas pelo meu pai. Acho que muitos podem concordar com ele.


Lembrei de te falar de uma constatação que fiz há alguns anos, da qual, quero crer, poucos se apercebem:

A democracia foi inventada na praça, porque os cidadãos atenienses, poucos em relação à população de escravos, mulheres e estrangeiros, costumavam destilar o seu ócio criativo na praça (ágora). Entre uma conversa e outra, descobriram que podiam dispensar o serviço do governante e decidir eles mesmos em assembléia sobre as grandes questões, deixando ao Rei um papel meramente simbólico.

O Iluminismo recuperou a ideia clássica da democracia ateniense, mas como já então se tratava de dar a cada cidadão uma fração ideal do poder (um homem, um voto - mas ainda não às mulheres) e não havia uma praça onde coubessem todos, foi necessário inventar a representação local, proporcional, distrital, corporativa ou nacional, de eleitos que se reuniriam para deliberar e formar governos com o aval dos eleitores.

Pulando já para o presente: a democracia representativa faliu. E já faz um tempo. Isso se traduz, na prática, pelo deficit de representatividade sentido pela maioria. Os governantes e o congresso sempre representam minorias que os usam para explorar o povo, em todo o mundo. Há pouca diferença em termos práticos do que acontecia sob o regime absolutista do Rei que era dono de tudo. Agora são os plutocratas que manipulam os cordéis dos fantoches eleitos.

Isso tudo estava funcionando muito bem, nas "democracias" e nos totalitarismos espalhados pelo mundo, mas algo começou a acontecer: em todos os lugares as pessoas começaram a ficar cada vez mais inseguras quanto ao futuro, ao constatar que a promessa de prosperidade para todos (dos capitalistas e de tudo o mais que se não é ditadura do mercado é ditadura de alguns) é uma mentira. Os jovens não conseguem empregos depois que se formam, e o fato é que em qualquer lugar do mundo o desemprego é maior entre os jovens, mesmo onde se verifica o quase pleno emprego, como no Brasil.

Some-se a essa insegurança a explosão da conectividade. O que os cidadãos gregos fizeram lá na praça de Atenas, os jovens estão fazendo hoje na Internet, que se tornou uma praça virtual. Bom, agora ficamos sabendo, das arábias até o Brasil, que a membrana (vamos chamar essa membrana de versão oficial dos fatos) que separa o virtual do real é tênue.

Ou seja, Ana, o sistema de poder é mais virtual que a rede de murmúrios da nuvem. Só agora sabemos disso com certeza.

Daí o próximo passo. Talvez eles descubram que não precisam mais do Rei. O que está faltando para isso? Certificação digital para todos os que entram na rede e queiram identificar-se como cidadãos.

Logo, portanto, será possível que a democracia volte a ser direta, exercida a partir de uma ágora virtual.

Eu mesmo pensei que muita coisa era impossível no Brasil, a principal delas que a cidadania conseguisse sair da passividade sem ser guiada por um líder carismático com uma causa simplista.

Se eu me enganei nisso, pode ser que eu acerte quanto à democracia direta exercida na praça virtual. Ela seria melhor do que o povo na rua.

Sobre opiniões dissidentes e bandeiras nas ruas

Essa foto foi tirada do blog Rodomundo e é da Marcha pela Liberdade em Junho de 2011


Não é fácil mesmo viver em uma democracia. É uma das coisas mais difíceis que tem.
Eu, como uma boa nerd, gosto de Star Wars, acho que muitos aqui gostam. É um filme com suas qualidades e defeitos. Mas tem uma cena que eu ODEIO, hehehe... acho que é uma das cenas de romance mais toscas que já vi. Anakin e Padmé em um picnic num campo florido. Acho que vocês sabem do que estou falando. Bom, mas ali eles discutem uma coisa bacana, que não sei se todo mundo viu. O Anakin diz que talvez se não houvessem tantos planetas no senado ou se tivesse um líder mais forte, tudo seria resolvido e a guerra acabaria. A Padmé diz que esperava que ele estivesse brincado. Um conselho amiga, se o cara é autoritário ele pode acabar te matando e deixando seus filhos orfãos, hehehe.

Mas sem brincadeira, ele diz algo que alguma vez na vida já pensamos, mas costumamos não dizer, seria mais fácil se algumas vezes não tivéssemos tantas vozes. Não precisaríamos ouvir um babaca como o inFeliciano. Não teria gente que vota em corruptos, não teria gente que vota em ruralista... aliás, não teria gente que VOTA.

Aí que está o problema. Ouvir vozes dissonantes é difícil pra caramba. Entrar aqui no facebook e ser criticada é difícil. Mas eu prefiria que todos concordassem comigo? DE JEITO NENHUM!

Uma vez disseram "prefiro vozes críticas da democracia ao silêncio da ditadura", e eu concordo plenamente.

Mas somos jovens, uma democracia mais jovem ainda, com parte da juventude que só acordou para o debate democrático agora. Acordar é uma sensação incrível, mas devemos saber que não sabemos tudo, que são as vozes dissonantes que fazem com que sejamos maiores e melhores.

Bandeiras em manifestações existem há muito tempo, pessoas que carregam sua bandeira também. Aliás, muitos brasileiros morreram ou foram torturados e marcados para a vida para nos dizer que poderíamos votar em quem quiséssemos, que as bandeiras e o direito de carregá-las era mais importante que toda a dificuldade de ouvir vozes que dizem algo diferente.

Se não gosta do partido A, B ou C, grite. Não vote nele, defenda seu ponto de vista, se posicione contra. Durante as eleições alerte seus amigos, sua família a não votar no partido que você considera o problema. Mais que isso, durante esse mesmo governo, seja uma oposição consciente. Mantenha sempre os olhos atentos a qualquer erro dos mesmos. Faça com que esses representantes saibam que você está vendo.

Mas atacar, agredir ou impedir que alguém carregue sua bandeira em espaço público é muito semelhante ao que já vimos e vivemos nesse país. E isso me assusta, de verdade.

É... coisa mais difícil essa coisa de liberdade e respeitar o outro... mas eu ainda prefiro a democracia.

"Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las." - Voltaire.


PS: Já se questionou a quem interessa não ter bandeiras em uma manifestação pública?

quarta-feira, 27 de março de 2013

Cem dias


O frio abraço da noite vem me envolver
Longe, muito longe, de ser o braço que queria sentir
Passos demais para apenas correr onde quero estar
Distante mesmo de poder sonhar em tocar

Viver sem saber e apenas esperar
Mil passos para percorrer e talvez não alcançar
Como ver a luz fugir para longe de si
E nada a fazer, apenas observar e sussurrar

Sentir-se criança, imóvel e inerte, à mercê dos dias
Não era assim que me diziam que ainda podia doer
Aquilo que corre nas minhas veias e que não me deixariam sofrer
Doses que me aplacariam as lágrimas e as secariam

Mas aquilo que está marcado a ferro na alma não se vai
A não se que se arranquem o pedaço e te deixem vazia, quebrada

De tantas vezes quebrada, jogada e maltratada
A ponto de não querer mais nada, nem amor

Porém, a noite passa, sempre passa
E o novo dia vem trazer um novo alento
Aquele calor que se lembra poder ainda ter dentro do peito
O que estava guardando para quando a hora chegasse

E mais um dia são mais mil passos
Sem parar de caminhar para onde quero chegar
Com firmeza que me faltava e agora presente está
Só mais um dia que se passou, menos um dia para esperar

quarta-feira, 13 de março de 2013

Luta do ainda ser


Ela pisa em água rasa e seus pés sentem o frio  congelante adormecer a palma de seus sonhos. 
Parada ela vê o fim do mundo pela janela, um distante planeta Terra sendo engolido por sorrisos e rostos alegres.
As enormes bocas se abrem para nada dizer, apenas balbuciar incongruências quaisquer, para mentir e sorrir. As faces dos destruidores são mais rígidas que seus dedos congelados e mais brancas. 
Mas o que ela pode fazer contra um exército de seres devorando as entranhas do planeta e expondo de forma grotesca as vísceras molhadas da mãe de todos? Será que só ela os vê?
São esses seres, invisíveis aos demais?
Ao longe, ela vê outros congelados como ela. Eles existem, mas o que fazem?
Com toda força ela tenta sair, mas dói. Dói arrancar a própria pele.
Sua palma já perdida, assim como seus dedos, lhe fazem questionar: “como andar?”
Mas é preciso salvar algo, o mínimo que seja de vida, uma centelha minúscula de existência.
Olhando para frente ela vê ainda mais água, muito mais para caminhar, e se já sem pele em seus pés, o que a fará seguir? Perder todo seu exterior? 
Tudo aquilo que ela vê de si mesma, que os outros vêem e sabem dela?
Será preciso perder tudo para salvar algo.
Mas dói. Arrancar cada centímetro de si e expor sua carne, dói muito mais do que ela suporta.
Então, vale a pena continuar?
E quando lá chegar, os sorrisos e rostos brancos continuarão a devorar tudo de bom que existe?
Pensar não ajuda, apenas agir, continuar, até estar totalmente nua.
Não sentir nada, é sentir tudo que se pode, é fazer com que a vida siga.
Quando o último suspiro for deixado para trás, no rio congelado de lágrimas, ela será outra. Alguém que ela não conhece, mas ainda sim, será.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Romantismo roubado


Ela amava a ficção.
Essa coisa de viver a vida de outra pessoa, ser um voyeur da vida alheia, era uma imagem que agradava àquela mulher. Uma alcoviteira, vivendo de migalhas.
E era mesquinha ao tratar os pobres autores, desejava sempre mais. Algo estava errado naquele roteiro, pois sua própria vida estava errada. Pensamentos pequenos para pessoas pequenas.
Mas no fundo a coisa toda era outra, toda a mesquinhês e ficção eram um escudo.
Sem vida própria ela seguia, tentando agarrar com furor a vida das personagens. Por isso mesmo, sofria quando eles sofriam e amava quando eles amavam. Já era quase impossível sentir o próprio corpo, e até ele a havia abandonado.
Mas para quê se importar? 
Em seus sonhos e suas imagens projetadas ela poderia ser quem quisesse ser. Uma boa foto, uma atriz, modelos eram abundantes, todas perfeitas. Para quê manteria seu corpo imperfeito?
Depois do corpo, pedaços de sua mente começaram a escapar, memórias.
Feias memórias de um passado triste.
Mas existiam os livros, os filmes! Ora! Novas memórias!
Ela poderia ser amada uma única vez de milhares de formas diferentes e perfeitas. 

"Como era mesmo aquela cena? Aquele beijo da novela? Tudo pode ser meu. Está ali, eu me lembro. Por quê não fazer disso uma memória minha?"

Ela queria tudo. Todos os amores perfeitos.
E mesmo quando a protagonista morria, sem problemas. Ela poderia passar para outra, e mais outra, e tantas que nem mesmo caberia no mundo. Todas as histórias já escritas e que ainda vagam pelas mentes do autores nem nascidos.
Até a última gota, a última letra, o último som.

Já sem corpo, sem memórias, em uma quase vida, a antiga mulher, agora uma ideia apenas, ainda não estava satisfeita. Ela queria se perder. 

E assim foi.

E não foi.

Ela continua presa, em qualquer história que se ler. Na pequena ideia da perfeição.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Juntando os Cacos


A menina estava catando os cacos do que tinha acabado de quebrar. Segundo sua mãe, ela tinha passado correndo ali “umas vinte vezes”. Ela não tinha contado, mas imaginou que a mãe poderia estar exagerando um pouco.
Mas o fato inegável é que ela tinha sido alertada de não correr perto da louça, e no entanto, ela correu.
Enquanto estava com o papel jornal estendido ao lado da tragédia e o olhar severo da mãe acompanhando, ela pensou: “poxa, eu também caí, me machuquei, será que ela não vê isso?”.
Uma raiva preenchia seu peito, afinal, quem pensava nela dentro daquela situação toda?
Mas com o passar dos pedaços grandes sendo catados, passando para os menores, até chegar no farelo, ela foi entendendo uma verdade, o acidente tinha sido causado pela sua imprudência, estava na hora de admitir a culpa.
Mas era difícil e doloroso, afinal ela estava com o joelho doendo e ralado, mas o que podia fazer além de se levantar e limpar a bagunça?

-        Desculpa, mãe.
-        Tudo bem, filha, agora não corra mais aqui na cozinha, tá bom?
-        Pode deixar comigo.

Logo a menina saiu da cozinha e pensou no que estaria passando na televisão. E breve esqueceu do ocorrido e do joelho dolorido. Abriu um grande sorriso ao notar que ia passar seu desenho favorito.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Caminhos


Quero cantar hoje, num karaokê, alguma música bem brega da minha infância.
Quero escrever aquelas histórias fantásticas que muitas vezes penso
Quero dançar o ritmo da terra sem medo de ser ridícula
Quero andar descalça e correr no asfalto brincando de esconde-esconde

Quero dormir e descansar, não apenas deitar e passar a noite pensando
Quero fazer algo que meu cérebro desligasse e me fizesse feliz por esse momento
Quero dar as mãos com meu filho, com um amigo, apenas pra saber que existem pessoas ali 
que não pensam em machucar, que sentem apenas amor

Um dia de ficção, um momento fora do mundo
Algo que colocasse um véu branco sobre a ferida aberta
Que não me deixasse ver o que vejo agora

Mas mais que isso,
Quero afastar essa dor, que me toma como o mar
que não permite que eu me levante, que não me deixa ser eu.