terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre o nada


Ela acordou e não havia nada lá. 
Mentira.
Ela acordou e viu apenas uma imensidão branca e ela mesma. Um papel pronto para ser usado. Ela achou que ainda estava dormindo, a pobre garota. Achou que era apenas uma brincadeira de seus olhos cansados.
Mas não era.
Tentou ver além, enxergar algo escondido, mas era isso, um vazio ao seu redor. E pela primeira vez em sua vida, ela estava completamente sozinha. Como não havia chão, nem cama, nem nada, ela não sabia se estava de pé, ou deitada, se poderia caminhar, e se caminhasse para onde iria?
Um súbito desespero lhe apertou o peito, achou que deveria chorar e gritar. Mas ao mesmo tempo viu a inutilidade de tal ato, afinal, mesmo um recém-nascido sabe muito bem que o choro é para os outros. O choro serve para dizer ao outro que estamos precisando de algo, para que nos acudam. E, bom... não havia ninguém.
Numa última tentativa boba de se consolar, ela pensou estar cega. Mas como pode estar cega e ver seus defeitos tão claramente, suas marcas, roupas, passado.
E com uma coragem acima do que ela mesma conhecia, admitiu a situação, não havia nada lá.
Quedou-se parada por um bom tempo, até que pensou em uma música.
Ela sorriu ao se lembrar de uma música boba, que um dia ouvira na infância. E cantarolou.
Do seu cantar surgiram as notas musicais na sua existência, no seu papel em branco. Ela corou, a primeira música que "escrevia" era boba e sem sentido. Porém não estava mais sozinha. Viu que as notas musicais criaram um caminho.
Ela então começou a correr feliz pela linha preta entrecortada pelas pausas, contratempos e notas. Cantava alto agora e corria.
Chegou ao final da música e sentiu como se ali tivesse um precipício, cair de novo para o infinito vazio, até que pensou ter asas. Já que ela poderia criar, porque não criar um mundo onde ela poderia ter grandes asas brancas?
Jogou-se do final da música, fechou os olhos e planou com suas asas, e ali ela criou o vento. Não precisava de um espaço, apenas das asas que ela mesmo tinha feito.
Ela então fazia seus caminhos de música e sempre alçava grandes vôos com suas asas imensas.
Com o passar de uma música e outra ela criou o tempo, um tempo próprio que apenas começava quando uma nova música lhe tomava o mundo. Um tempo que parava quando seu coração parava de bater compassado. Onde um sorriso durava meia música ou duas músicas inteiras.
E para quem acha que ela terminou por aí, nunca. Agora que sabia que podia, ela começou a criar as cores, misturá-las, fazer músicas e voar. 
E não parou mais de criar.